
Impossível não comentar e lamentar a morte de um dos maiores escritores da língua portuguesa. José Saramago, apesar de começar a escrever com uma idade um pouco avançada, conseguiu deixar um vasto acervo ilterário. Polêmico em sua oposição aos dogmas católicos e à postura conservadora dos portugueses, destacou-se na escrita da pós-modernidade. A maioria de suas obras tratam das relações entre ficção e história, ou melhor, na descrença da história. Em "História do cerco de Lisboa", poe exemplo, nota-se, essa discussão acerca das fronteiras tênues entre ficção e história. Um simples e personagem coadjuvante na construção do sistema literário, Raimundo Silva, resolve reescrever a história de Portugal inserindo um simples, mas retumbante "não". Este "não" significa para os leitores que os cruzados não participaram da campanha da reconquista de Lisboa. A negação acaba também por anular a própria construção de uma identidade nacional portuguesa, uma vez que descarta a participação dos cruzados para a vitória dos portugueses.
O ato de rebeldia do editor/revisor lhe coloca num patamar além da posição à sombra do autor. Há ainda uma reescrita da história oficial o que coloca tal obra no rol de obras alinhadas na pós-modernidade. Época de metaficção historiográfica, reescrituras, paródias, plágios, apropriações.
Saramago propõe tal reescrita, bem como se coaduna com tal ato de rebeldia ao ir contra o discurso dos dominadores. Essa sempre foi a sua intenção, daí a sua volta a Platão e a ideia de simulacro e simulação, aspecto muito corriqueiro em tempos de pós-modernidade. Espero que, pelo menos, ele esteja travando alguns diálogos com Platão onde quer que ele esteja.




